10.11.09

Do Ensino Médio para o Oriente Médio


Hipocrisia pouca é bobagem...

5.11.09

Três Poemas


Metassombro (Sebastião Uchoa Leite)


eu não sou eu
nem o meu reflexo
especulo-me na meia sombra
que é meta de claridade
distorço-me de intermédio
estou fora de foco
atrás da minha voz
perdi todo o discurso
minha língua é ofídica
minha figura é a elipse.



Axioma (Orides Fontela)


"Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer."




Epigrama  (Marly de Oliveira)
Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente.
e não pensar, não temer.
ser, apenas: altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte.
com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.

31.10.09

tento esquecer


Alguns se drogam porque são idiotas,
outros se drogam para ficar idiotas.

Eu deitei no chão frio do banheiro
para ver se meu corpo ainda estava quente.

Alguns fecham os olhos para tentar esquecer,
outros se esquecem de fechar os olhos.

15.10.09

Súplica à Vida



Vida iluda-me!
Encha de suas cores esses olhos que já não querem acreditar. Dê-me os psicotrópicos dos deuses. Crie anjos, mantras, fábulas, salmos para alegrar essa alma velha que nunca foi moleque. Quero outra gangorra que não à do meu humor.

Vida preencha-me
Invada de estações e climas essa mente vazia.  Orbite em mim estrelas, unicórnios, cometas, fadas e planetas coloridos e desabitados.  Qualquer coisa que anime minhas manhãs. Qualquer piada espiritual que me faça rir. Qualquer tolice que me deixe bobo e inocente. Crente de que é tudo azul. Mesmo estando vermelho.

Vida faça-me crer que és realmente bela.
Pinte-me com aquarela. Escancare em meu peito uma nova janela. E que entre luz, sons, perfumes, incensos, esperança e uma doce loucura. E que eu durma como a criança sem memória, sem preocupação, sem dor e que sonha em brincar na praia ao acordar. E que o samsara seja leve. Pegue leve. E que eu caminhe com tranquilidade...

10.10.09

Condoms are bad?

Cuide-se!

28.9.09

A Prudência


 (A Prudência - Esculpida por Raul Xavier)

....Inversamente, quem não vê que o sexo seguro, que nada mais é que uma sexualidade prudente, também pode ser uma disposição moral (pela atenção que um manifesta, mesmo que já esteja doente, pela saúde do outro)? Entre adultos que consentem, a sexualidade mais livre não é um erro. Mas a imprudência é. Nestes tempos de AIDS, comportamentos que, em si, não seriam em nada condenáveis podem vir a sê-lo, não pelos prazeres que proporcionam, e que são inocentes, mas pelos riscos que ocasionam ou fazem o outro correr. Sexualidade sem prudência é sexualidade sem virtude, ou cuja virtude, em todo caso é deficiente. (...) Primeiro, não prejudicar. Depois, proteger. É a própria prudência, sem a qual qualquer virtude seria impotente ou nefasta.eu já disse que a prudência não impede o risco e nem sempre evita o perigo. Veja o alpinista ou o navegador: a prudência faz parte do ofício. Que risco? Que perigo? Em que limites? Com que fim? O princípio de prazer o determina, e é isso que chamamos de desejo ou amor. Como? Por que meios? Com que precauções? O princípio de realidade o decide e – quando decidimos da melhor maneira possível – é o que chamamos prudência. A prudência, dizia são Agostinho, é um amor que escolhe com sagacidade.
....Moral aplicada, dizia eu, e nos dois sentidos do termo, é o contrário de uma moral abstrata ou teórica, mas o contrário também de uma moral negligente. O fato de esta ultima noção ser contraditória deixa claro quando a prudência é necessária, inclusive para proteger a moral do fanatismo (sempre imprudente, de tanto entusiasmo) e de sim mesma. Quantos horrores consumados em nome do Bem? Quantos crimes, em nome da virtude? Era pecar contra a tolerância, quase sempre, mas também contra a prudência, na maioria das vezes. Desconfiemos desses Savonarola que o Bem cega. Demasiado apegados aos princípios para considerar os indivíduos, demasiado seguros de suas intenções para se preocuparem com as conseqüências ...
....Moral sem prudência é moral vã ou perigosa. “Caute”, dizia Spinoza: “Cuidado”. É a máxima da prudência, e é preciso ter cuidado também com a moral, quando ela despreza seus limites ou suas incertezas. A boa vontade não é uma garantia, nem a boa consciência uma desculpa. Em suma, a moral não basta à virtude; são necessárias também a inteligência e a lucidez. É o que o humor recorda e a prudência prescreve.
....É imprudente ouvir apenas a moral e é imoral ser imprudente.

(Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - André Comte-Sponville)

27.9.09

Em conserva



No inicio o pote ficava sempre aberto. A volúpia era tanta que nem se pensava em fechá-lo. Todos os dias como um ritual prazeroso o conteúdo do pote era sorvido. Havia deleite, alegria e, às vezes, até fastio. Quando ocasionalmente não era possível chegar ao pote o desejo aumentava e, quando, na posse dele o gozo era redobrado. Com o tempo o pote não foi mais solicitado com tanta freqüência.  Ou a sede já não era tanta ou seu conteúdo foi perdendo o sabor. Resolvi deixar o pote fechado para que insetos não se apossassem dele.  Passei a ter que lembrar que o pote estava ali. Mas os recados começaram a fadigar. Hoje pela manhã notei que a validade já esta para vencer. Resolvi colocá-lo na geladeira. Mas já me dei conta que mais cedo ou mais tarde terei que me desfazer dele. E no final só restará a lembrança das primeiras colheradas.